O pequeno colonizador: Tintim na África e os estereótipos coloniais (Bélgica, 1930-1931)

Naiara Krachenski

Revista Diálogos Mediterrânicos ISSN 2237-6585

O pequeno colonizador: Tintim na África e os estereótipos coloniais (Bélgica, 1930-1931), Nº19 (Dezembro 2020): pp. 127-142

Link:

https://www.academia.edu/49038947/O_pequeno_colonizador_Tintim_na_África_e_os_estereótipos_coloniais_Bélgica_1930_1931?email_work_card=view-paper

Esta é a Léa Tavares Mujinga com a foto do seu pai português nas mãos. Na segunda foto, a Léa com as suas quatro amigas-irmãs: Monique Bitu Bingi, Noëlle Verbeken, Simone Ngalula e Marie-José Loshi. Todas vítimas de crime contra a humanidade. Todas ainda vivas. Todas vítimas do colonialismo, essa coisa que dizem que já acabou, que já foi há muito tempo. “Deixem lá isso”. Alguém devia avisar a Léa, que ainda tem as cicatrizes nas pernas.

Em Portugal, não se falou nisto. E, no entanto, estas cinco mulheres fizeram o que nenhuma vítima colonial tinha ainda conseguido: condenaram definitivamente um Estado europeu colonialista por crime contra a humanidade. A Bélgica. Dia 22 de maio de 2026. Primeira condenação deste tipo na história da Europa. Eram crianças de mãe negra e pai branco, nascidas no Congo entre 1945 e 1950. O Estado colonial retirou-as das suas famílias à força e entregou-as à Igreja Católica. A Léa tinha dois anos quando a arrancaram dos braços da mãe. Viveram com as freiras brancas cúmplices em condições absolutamente indignas.

“Filhas do pecado”, “café au lait.”, etc. O corpo mestiço como ameaça à ordem colonial. Já o tinha escrito anteriormente. Como explica a historiadora Aurélia Michel em “Un monde en nègre et blanc” (Seuil, 2020) foi precisamente o medo dessa fronteira atravessada que esteve na origem da construção do “negro” e do “branco” como categorias absolutas e irreconciliáveis. Ai a pureza!

Em 2019, o governo belga pediu desculpa. As cinco mulheres disseram que não chegava. Em dezembro de 2024, o tribunal de recurso de Bruxelas reconheceu que os factos constituíam crime contra a humanidade. Em maio de 2026, a Cour de Cassation confirmou a sentença. 50 mil euros por pessoa e um nome jurídico para o que lhes fizeram: crime contra a humanidade. Têm mais de setenta anos. Viveram décadas sem conseguir falar disto, nem sequer em casa.

Em 2026, há vítimas vivas do colonialismo. E há países, como Portugal, onde isto passou completamente despercebido. O pai da Léa era português.

Bravas… Léa, Monique, Noëlle, Simone, Marie-José.
Não são gente a mais

Luisa Lopes Semedo

Investigadora, Filosofia, Política e Ética : Faculdade de letras- Universidade Sorbonne