Racismo Estrutural

Expresso
19 setembro 2024
Contrafactual
A imigração não cria segregação
(a pobreza, sim)
Henrique Raposo
Lusa, 16 fevereiro, 2026
A propósito do livro «Foi o Preto», apresentado no Centro Cultural de Cabo Verde, em Lisboa, Ângelo Delgado concedeu uma entrevista à Agência Lusa.
O escritor Ângelo Delgado recuperou relatos que ouviu e outros que testemunhou para criar a narrativa do livro “Foi o Preto”, que pretende que sirva de alerta contra o racismo presente na sociedade portuguesa.
O romance narra a história de um adepto de futebol cabo-verdiano, que no regresso de um jogo é interpelado por agentes policiais e acusado de algo que nem sabia o quê. A infundada acusação leva-o a tribunal e à prisão, para amargura da família.
Segundo o autor, em entrevista à agência Lusa, o romance “é um alerta, uma denúncia, uma chamada de atenção, mas estas histórias têm de ser contadas”, em particular numa altura em que se veem “situações em que há uma tentativa de manipular algumas ações, acusando alguém de cor mais escura”.
“Vivemos tempos em que isto está a acontecer e vemos isso nos meios de comunicação [social] e poderá acontecer com maior força, caso haja uma mudança de xadrez político nas próximas legislativas”, alertou o escritor nascido em Lisboa, filho de pais cabo-verdianos.
Apesar de o racismo não ser o seu tema de eleição, Ângelo Delgado decidiu abordá-lo devido à “enorme preocupação” que suscita e sobre o qual já se tinha debruçado no seu primeiro título, “Sem Ofensa” (2020), com ilustrações de Sofia Ayuso, onde contou “um conjunto de histórias que, na sociedade portuguesa, uns vão ignorando e outros negando”.
Para o autor, “Foi o Preto” reflete um quotidiano “onde aquelas ofensas [de cariz racial] foram escutadas, e muitas histórias foram contadas”, tendo sido testemunha de muitas histórias, “algumas como espetador de primeira fila”, tendo feito parte do seu quotidiano.
O livro recupera “relatos que quase sempre aconteceram”, disse, referindo que “a ficção que existe em ‘Foi o Preto’ tem a ver mais com a criação de ganchos narrativos que possam, eventualmente, prender o leitor, e naquilo que é o tema, a abordagem ao racismo e aquilo que aconteceu.
“Falamos sempre, sim, de algo que aconteceu e o que foi o meu quotidiano na adolescência e nos primeiros anos de adulto”, sublinhou o escritor.
Além do racismo, neste romance o autor quis abordar “o colonialismo e as feridas que ficaram abertas na sociedade portuguesa, que é um tema que se fala pouco, até entre família”.
Para Delgado, essa discussão é necessária, mas neste momento “a sociedade portuguesa não está preparada para debater o colonialismo, de uma forma séria, e sem criar divisões”.
“Apenas o que foi o colonialismo, sem apontar o dedo a ninguém, porque eu acho quer as pessoas se sentem atacadas. Deve haver esse cuidado pois quem cá está hoje não teve a ver nada com o que aconteceu ontem, e esse ontem não é muito distante, mas algo distante”, argumentou.
Delgado defendeu que se deve debater o tema do colonialismo, para que se perceba “melhor aquilo que é Portugal, e [entender] um pouco a génese do país”.
“O colonialismo português foi brutal e violento como qualquer outro tipo de colonialismo de outros países. É um opressor sobre um povo oprimido, é isso quer significa colonizar. Mas, tudo isto exige debruçarmo-nos sobre o assunto com alguma demora”, considerou.